Muitos que acessam meu blog sabem que adoro ler. Leio várias revistas,obras didático-metodológicas e romances, tudo ao mesmo tempo. Principalmente, gosto de ler artigos científicos e blogs de amigos. Além de um tempinho para o cinema e alguns programas na tv. Porém, sempre consigo ler uma obra prima extensa como esta, ao longo do ano. (Este demorei uns três meses). Não tenho pressa. Estive em uma verdadeira viagem ao mundo da fantasia sem precisar tirar os pés do chão.
"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara (...). O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo."
O trecho acima inicia a obra mais conhecida de Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão.
“Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo”
Este trecho aponta para o personagem principal da obra: a aldeia Macondo.
Apesar de ser uma prosa narrativa, em muitos momentos, o livro se torna um grande poema, pelo lirismo que é inserido ao longo dos capítulos. Chuvas de pétalas, pessoas que sobem aos céus e a emoção em ver pela primeira vez um cubo de gelo, são alguns dos artifícios usados por García Márquez para quebrar a violência de algumas passagens. E que violência! Atos sexuais, assassinatos, brigas e desilusões, são tratados com uma brutalidade que por vezes assusta, mas nem por isso torna-se menos bela. Essa dualidade entre o suave e o grotesco predomina em toda obra. Esse sentimento de revolta social é marcante em seus romances. A obra de Márquez é de grande teor político, manifestado em seus heróis, que morrem pelos seus ideais e pelo cinismo que ele demonstra em relação aos políticos O livro é bem longo, mas o seu magnífico final faz valer à pena toda a leitura.
Em suma, Cem anos de solidão é daquelas obras que são item obrigatório nas estantes dos apreciadores da boa literatura.Comprá-lo-ei, pois.

A produção de Joaquim Pedro de Andrade(1969), baseado na obra de Mário de Andrade, é um marco na história do cinema brasileiro. Conseguiu fazer uma crítica social a quase todos os tipos sociais e do Brasil. Principalmente, conseguiu fazer um filme bom que caiu no gosto de pobres e ricos da época. Paulo José fazendo a mãe que pariu Macunaíma, que nasce negro, e depois interpreta a versão do Macunaíma que vira branco só porque saiu da aldeia (pensem no simbolismo que era a fonte que o transforma em branco); do cigarrinho que fazia uma índia (Joana Fomm) vê-lo como um príncipe; dos irmãos igualmente preguiçosos mas menos criativos ao fato de na aldeia eles serem brancos ou negros, sem aparência de índio, a não ser pelo mito de preguiçoso, revelado diversas vezes na fala “Aaaaaii, que preguiça”.
Mas olha a singeleza do diretor. Macunaíma criança comendo terra e seu irmão perguntando: “Ta gostoso, coração, ta?”. Na cidade grande, outros tipos são ridicularizados. A mais interessante é Ci, interpretada por Dina Sfat, uma guerrilheira resistente à ditadura, ninfomaníaca e que adora dinheiro. Os duelos de Macunaíma com o gigante Pietro Pietra, representam a dificuldade que os menos abastados têm de subir na vida. Uma das mudanças mais marcantes em relação ao livro de Mário de Andrade, em que o anti-herói se transformava num mito brasileiro. Enfim, creio que a mudança da história do livro para o cinema fora necessária para o diretor se propunha, como na cena da feijoada humana (no filme) em vez da macarronada (no livro) e de Mário não diz onde Macunaíma teria nascido, mas Joaquim mostra exatamente onde. Para o que Andrade queria (e fez) retratar se saiu muito bem. Afinal, “muita saúva e pouca saúde os problemas do Brasil são”.




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