domingo, 8 de janeiro de 2012

A Doida de Carlos Drummond de Andrade

Hoje sonhei com minha mãe e fiquei pensando o dia todo nela. Uma tarde, aqui em casa ela me perguntou se eu já havia lido o conto "A Doida", de Drummond. Eu respondi que não e não estava com vontade de ler naquele dia, mas ela insistiu muito e li em voz alta para nós, no meu quarto. Logo no início vi que não iria conseguir chegar até ao fim lendo em voz alta. E ela que já o conhecia muito bem, já no começo, começou a chorar. Foi o último texto literário que lemos juntas. Em seguida comecei a procurar o que havia em vídeo sobre esse conto e achamos um ótimo trabalho.
Hoje, decidi  fazer essa postagem depois de um longo período sem postagens.  Depois de muito procurar vi que fazia parte do “Contos de Aprendiz”, mas todos os links pra download faltava o final. Até que finalmente achei o tal conto na íntegra, então, abaixo transcrito A Doida:

A doida

                                                                                         (Carlos Drummond de Andrade
                                                                                   In: Contos de Aprendiz.)

A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se. Era só aquele chalezinho, à esquerda, entre o barranco e um chão abandonado; à direita, o muro de um grande quintal. E na rua, tornada maior pelo silêncio, o burro pastava. Rua cheia de capim, pedras soltas, num declive áspero. Onde estava o fiscal, que não mandava capiná-la?

Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores. Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados. Não explicavam bem quais fossem esses benefícios, ou explicavam demais, e restava a impressão de que eram todos privilégios de gente adulta, como fazer visitas, receber cartas, entrar para irmandade. E isso não comovia ninguém. A loucura parecia antes erro do que miséria. E os três sentiam-se inclinados a lapidar a doida, isolada e agreste no seu jardim. Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado, numa das janelas da frente, as mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando xingamentos, pragas, numa voz rouca. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera.

Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de 60 anos, e loucura e idade, juntas, lhe lavravam o corpo). Corria, com variantes, a história de que fora noiva de um fazendeiro, e o casamento, uma festa estrondosa; mas na própria noite de núpcias o homem a repudiara, Deus sabe por que razão. O marido ergueu-se terrível e empurrou-a, no calor do bate-boca; ela rolou escada abaixo, foi quebrando ossos, arrebentando-se. Os dois nunca mais se viram. Já outros contavam que o pai, não o marido, a expulsara, e esclareciam que certa manhã o velho sentira um amargo diferente no café, ele que tinha dinheiro grosso e estava custando a morrer – mas nos racontos antigos abusava-se de veneno. De qualquer modo, as pessoas grandes não contavam a história direito, e os meninos deformavam o conto. Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé do caminho do córrego, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e eclipsava-se. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, provisões e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável. Às vezes uma preta velha arriscava-se a entrar, com seu cachimbo e sua paciência educada no cativeiro, e lá ficava dois ou três meses, cozinhando. Por fim a doida enxotava-a. E, afinal, empregada nenhuma queria servi-la. Ir viver com a doida, pedir a bênção à doida, jantar em casa da doida, passou a ser, na cidade, expressões de castigo e símbolos de irrisão.
Vinte anos de tal existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças. E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra. A princípio, como justa penalidade. Depois, por prazer. Finalmente, e já havia muito tempo, por hábito. Como a doida respondesse sempre furiosa, criara-se na mente infantil a idéia de um equilíbrio por compensação, que afogava o remorso.

Em vão os pais censuravam tal procedimento. Quando meninos, os pais daqueles três tinham feito o mesmo, com relação à mesma doida, ou a outras. Pessoas sensíveis lamentavam o fato, sugeriam que se desse um jeito para internar a doida. Mas como? O hospício era longe, os parentes não se interessavam. E daí – explicava-se ao forasteiro que porventura estranhasse a situação – toda cidade tem seus doidos; quase que toda família os tem. Quando se tornam ferozes, são trancados no sótão; fora disto, circulam pacificamente pelas ruas, se querem fazê-lo, ou não, se preferem ficar em casa. E doido é quem Deus quis que ficasse doido... Respeitemos sua vontade. Não há remédio para loucura; nunca nenhum doido se curou, que a cidade soubesse; e a cidade sabe bastante, ao passo que livros mentem.

Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. A pedra batia no caixilho ou ia aninhar-se lá dentro, para voltar com palavras iradas. Ainda haveria louça por destruir, espelho, vaso intato? Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado. O chefe reservou-se um objetivo ambicioso: a chaminé.

O projétil bateu no canudo de folha-de-flandres enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. As paredes descascadas, sob as trepadeiras e a hera da grade, as janelas abertas e vazias, o jardim de cravo e mato, era tudo a mesma paz.

Aí o terceiro do grupo, em seus 11 anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Não só podia atirar mais de perto na outra janela, como até, praticar outras e maiores façanhas. Os companheiros, desapontados com a falta do espetáculo cotidiano, não, queriam segui-lo. E o chefe, fazendo valer sua autoridade, tinha pressa em chegar ao campo.

O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado? ...E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem, e o melão-de-são-caetano se enredava entre as violetas, as roseiras pediam poda, o canteiro de cravinas afogava-se em erva. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins, cabecinha móbil e suspicaz. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois em atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul (tinha sido azul) que fechava a varanda da frente. Era um ponto que não se via da rua, coberto como estava pela massa de folha gemo A cancela apodrecera, o soalho da varanda tinha buracos, a parede, outrora pintada de rosa e azul, abria-se em reboco, e no chão uma farinha de caliça denunciava o estrago das pedras, que a louca desistira de reparar.

A lagartixa salvara-se, metida em recantos só dela sabidos, e o garoto galgou os dois degraus, empurrou cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução. Recuou um pouco e olhou para a rua: os companheiros tinham sumido. Ou estavam mesmo com muita pressa, ou queriam ver até aonde iria a coragem dele, sozinho em casa da doida. Tomar café com a doida. Jantar em casa da doida. Mas estaria a doida?

A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma caçarola no chão, e a pedra que o companheiro jogará.

Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou o peitoril, pisou indagador no soalho gretado, que cedia.

A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve, entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro.

No outro cômodo a penumbra era mais espessa parecia muito povoada. Difícil identificar imediatamente as formas que ali se acumulavam. O tato descobriu uma coisa redonda e lisa, a curva de uma cantoneira. O fio de luz coado do jardim acusou a presença de vidros e espelhos. Seguramente cadeiras. Sobre uma mesa grande pairavam um amplo guarda-comida, uma mesinha de toalete mais algumas cadeiras empilhadas, um abajur de renda e várias caixas de papelão. Encostado à mesa, um piano também soterrado sob a pilha de embrulhos e caixas. Seguia-se um guarda-roupa de proporções majestosas, tendo ao alto dois quadros virados para a parede, um baú e mais pacotes. Junto à única janela, olhando para o morro, e tapando pela metade a cortina que a obscurecia, outro armário. Os móveis enganchavam-se uns nos outros, subiam ao teto. A casa tinha se espremido ali, fugindo à perseguição de 40 anos.

O menino foi abrindo caminho entre pernas e braços de móveis, contorna aqui, esbarra mais adiante. O quarto era pequeno e cabia tanta coisa.

Atrás da massa do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto soerguido, a doida esticava o rosto para a frente, na investigação do rumor insólito.Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada.

Ele encarava-a, com interesse. Era simplesmente uma velha, jogada num catre preto de solteiro, atrás de uma barricada de móveis. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.

Mas os dedos desceram um pouco, e os pequenos olhos amarelados encararam por sua vez o intruso com atenção voraz, desceram às suas mãos vazias, tornaram a subir ao rosto infantil.

A criança sorriu, de desaponto, sem saber o que fizesse.

Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.

Como a criança não se movesse, o som indistinto se esboçou outra vez. Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida, e todo desejo de maltratá-la se dissipou. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se canhestramente, o confirmavam.

O menino aproximou-se, e o mesmo jeito da boca insistia em soltar a mesma palavra curta, que entretanto não tomava forma. Ou seria um bater automático de queixo, produzindo um som sem qualquer significação?

Talvez pedisse água. A moringa estava no criado - mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber.

Fazia tudo naturalmente, e nem se lembrava mais por que entrara ali, nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria idéia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.

Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.

Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam. Teve que abraçar-lhe os ombros – com repugnância – e conseguiu, afinal, deitá-la em posição suave.

Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio...

Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de aquiescência. Ficou perplexo, irresoluto. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer, e isso ele sabia que não apenas porque sua mãe o repetisse sempre, senão também porque muitas vezes, acordando no escuro, ficara gelado por não sentir o calor do corpo do irmão e seu bafo protetor.

Foi tropeçando nos móveis, arrastou com esforço o pesado armário da janela, desembaraçou a cortina, e a luz invadiu o depósito onde a mulher morria. Com o ar fino veio uma decisão. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.
 


É Bela e cativante a maneira com que autor descreve uma singela passagem na vida de dois seres tão distintos e próximos por uma única razão: A HUMANIDADE PRESENTE EM CADA VIVENTE!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Orações para Bobby

 
 
RELATO DE ATIVIDADE DO CURSO DE DIVERSIDADES
Realizamos nas dependências do Colégio Estadual Unidade Polo- Ensino Fundamental e Médio um dos encontros do curso de Diversidades por meio da Coordenação da Supervisora Marlene, que aconteceu no Mês de setembro e teve como tema homossexualidade.

Escolhemos para estudo e debate o filme “Orações para Bobby", com o objetivo de orientação, reflexão e questionamento. É um filme baseado em um livro do mesmo título, de Leroy Aarons. Fala sobre o drama de ser homossexual na adolescência e em uma família muito religiosa. Um jovem se suicida após se sentir rejeitado pela mãe. A morte provoca um terremoto na família conservadora, e a história fica mais interessante com os desdobramentos: os parentes ficam se remoendo de culpa até encontrarem um caminho mais digno de superar o trauma.

O filme mostra a História de Mary Graffith e de como ela decidiu procurar saber a interpretação que bíblia diz sobre homossexualidade após o suicídio de seu filho. Para Mary Griffith infelizmente a história acabou de forma trágica, entretanto sua história mudou a vida de centenas se não de milhares de famílias norte-americanas que se deram a oportunidade de amar e compreender seus filhos acima de tudo e qualquer coisa. Mary passou a lutar pelos seus direitos.

O filme termina com a célebre frase de Mary: "Antes de dizerem amém em suas casas e igrejas pensem. Pensem e lembrem-se uma criança está ouvindo". Mary Griffith.

Quando o filme acabou estávamos muito emocionados, mal conseguíamos dar nossas opiniões. Mas, mesmo assim, demos nossas impressões, não havendo no grupo discordância. E foi unânime a aprovação das ideias que o filme relata e ainda citamos casos em que devemos nos preocupar principalmente no âmbito escolar e justamente na idade em que o adolescente mais sofre esse tipo de preconceito. Alguns professores quiseram passar o filme para o seu pen drive para poder repassá-lo aos seus familiares e amigos.

O gênio Rui Barbosa, em seu célebre discurso "Oração aos Moços", de 1919, já plantara a ideia de que a maior desigualdade que se pode cometer é tratar com igualdade os desiguais.

Ele fazia referência ao que hoje chamamos respeito à diversidade.

"Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseverança. Tal a missão do trabalho."

 (Rui Barbosa,1919)
A questão da igualdade entre os seres humanos aflige as mentes pensantes desde há muito tempo. Nós, profissionais da educação temos que estar sempre atentos para com o jovem que apresente alguma diversidade seja visto sempre pelo seu caráter, personalidade e dons intelectuais e principalmente, como ser humano.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Conto: Baleia

Estou postando o conto " Baleia" para os alunos dos terceiros anos que perderam a leitura do conto e o filme " Vidas Secas", de Graciliano Ramos. Também pode ser encontrado na obra " Os Cem melhores contos  Brasileiros do Século XX, de Italo Moriconi na Sala de Leitura.


                                  Baleia
Graciliano Ramos

A CACHORRA Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa nas base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.

Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que advinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:

- Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se difereciavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiquiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinhá vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-­se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.

Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.

Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:

- Capeta excomungado.

Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.

Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.

Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era impossível, levantou um pedaço da cabeça.

Fabiano percorreu o alpendre, olhando as barúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis:

-Ecô! ecô!

Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a e esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos de Baleia, que se pôs latir desesperadamente.

Ouvindo o tiro e os latidos, sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na caca chorando alto. Fabiano recolheu-se.

E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí por um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.

Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha as folhas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteira, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-­se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latina: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tomavam-se quase imperceptíveis.

Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.

Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava­se.

Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.

Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinha fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.

O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.

Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.

Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a importância em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades.

Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinhá Vitória guardava o cachimbo.

Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.

Provavelmente estava no cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.

A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do outro peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

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Fonte: RAMOS, Graciliano. Vidas secas, 82ªed. Rio de Janeiro: Record. 2001. p. 85-91.

Entregar uma resenha crítica no dia 15 de setembro.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Pequeno Príncipe no ensino de jovens e adultos


Este ano estou com uma turma bem diferente. A turma pertence ao ensino de jovens e adultos do ensino fundamental. São doze alunos em diferentes faixas etárias, com vários objetivos, mas a maioria com grande interesse em conseguir recuperar o tempo perdido. Ao observar a turma, percebi que sua expectativa quanto ao ensino de Língua Portuguesa era muito preocupante. Muitos achavam que não iriam conseguir ir até o final do curso. Principalmente quando comentei sobre as atividades de produção de textos. Para sanar essa preocupação resolvi investigar suas preferências literárias. O que já tinham lido, os filmes que haviam assistido os gêneros preferidos. Após esta análise pude verificar que as histórias ficcionais eram as que mais despertavam seus interesses, como também os temas de amor, justificadas pela própria idade. Alguns também demonstraram interesse por relacionamentos em geral, por isso decidi apresentar-lhes a obra “O Pequeno Príncipe”, em uma edição de colecionador. Após mostrar-lhes o livro e algumas passagens famosas, comecei a exibição do filme. No final desta etapa distribui as questões a serem trabalhadas em equipes conforme as séries.

As questões são as seguintes:

Séries iniciais:

a) Pesquise em sites de temas literários,todos personagens da obra e suas metáforas, isto o significado de cada personagem.

b) Qual a mensagem da raposa?

Séries finais:

a) Escolha 10 frases marcantes da obra e explique o que o autor quis dizer literalmente.

Na sequência, pedi que os alunos fossem ao laboratório de informática para fazerem as pesquisas na internet afim de que confrontem a opinião dos blogueiros com as suas. A partir dessas atividades pude perceber que o grau de interesse pela obra aumentou, percebendo o valor estético da obra e se identificando com ela.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Em Férias


Estou em férias na casa da minha filha Camila que mora em Terra Roxa - Pr. Capital nacional, da confecção moda bebê.

Particularmente, acho a cidade muito quente. Em compensação o povo é muito solidário, honesto, trabalhador e estar bem perto de Guaíra e do Paraguai é um de seus pontos positivos. Estive no Salto del Guairá três vezes nesta estada. É difícil vir ao Paraguai e não pensar em compras. 
Se quiser se aventurar, aconselho lojas como Shopping China, imagine um supermercado, onde você caminha entre perfumes, brinquedos, confecções, bebidas, celulares, computadores, instrumentos musicais; tudo com preços bem abaixo do que compramos no Brasil. O Shopping China é assim, mas com bebidas, chocolates suiços, roupas e, é claro maquiagens e produtos de beleza. Além do Shopping China, tem a Bless. a Queen Anne e a Towers, que são ótimas também, além de confiáveis.
É ótimo para comprar creme e shampoo da L’Oréal, Alfaparf, Kerastase, Redken entre outros bem mais em conta que no Brasil. Tem de tudo! Não resisti e acabei com minhas economias!!!! O bom é que são  produtos originais! Se ultrapassarem a cota de 300 dólares é obrigatório o preenchimento da declaração de bagagem, que é feita na aduana brasileira, na volta para o Brasil.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente


Ontem, os alunos da 1ª série "A", fizeram a sua apresentação da peça"O Auto da Barca do Inferno". Esta é uma turma bem diferente da "B". São muito tranquilos, mas se dedicaram muito ao teatro, até me surpreenderam, pois encomendaram as produções e me fizeram surpresa. São também muito divertidos, fazem piadinhas e aprendem brincando. Difícil é fazê-los se concentrarem no que fazem. Notei que com o teatro ficaram mais unidos, dividiram suas responsabilidades e cobraram a participação efetiva dos amigos, bem como uma avaliação justa.
Parabéns a todos e  aproveitem as férias!!!


                  Diego, autor da Releitura  da peça " O Velho da Horta, de Gil Vicente"
                                  no figurino do velho.
                                      
                                  

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Velho da horta / O Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente

Estou ensaindo com meus alunos das primeiras séries do ensino médio, duas peças de Gil Vicente, para encerrar o ano em gran finale. Eles estão muito motivados, ansiosos para que no dia da apresentação tudo saia como planejamos. Como as peças estão em português arcaico, ficaria muito estranho encenarmos no original. Por isso, pedi aos alunos que atualizassem as falas, o que foi muito divertido e produtivo, pois compreenderam as intenções do autor quanto às críticas sociais e o quanto ainda são atuais.
Peça original "O Velho da Horta": Domínio Público
Versão atualizada pelo aluno Diego Henrique de Moraes Gomes. do 1º "B":
Releitura

O Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente: Releitura





sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A Carta de Pero Vaz de Caminha


Estou preparando meus alunos da 1ª série do Ensino Médio para a avaliação do PAS-UEM e conferindo as obras literárias exigidas, verifiquei que a primeira da lista é  A carta de Pero Vaz de Caminha. Decidi, então, utilizar uns encartes  denominados "EUREKA", do ensino pré-vestibular, enviados no ano passado para a preparação dos alunos para o Enem. Neste encarte há boa parte da carta, mas pesquisei também na internet e achei-a completa do site do domínio público.
Os alunos gostaram da leitura do documento, principalmente quando Caminha se refere às descrições detalhadas dos indígenas.
Abaixo segue o modelo de estudo que utilizei, variando a dificuldade conforme a turma.

Li a carta de Pero Vaz de Caminha, explicando e contextualizando as informações e sempre preocupada em mostrar uma compreensão da leitura direcionando ao respeito, ao "diferente" e aos interesses. Contextualizei o porquê Portugal era, naquela época, o país pioneiro na exploração dos mares.

Durante a leitura, fiz comentários a fim de que os alunos visualizem as dificuldades para se compreender uma cultura diferente da nossa. Também investiguei seus conhecimentos prévios da disciplina de História. Fiquei admirada pelo total desconhecimento em relação a alguns fatos e vocabulários. Ex.: não sabiam o que significava: degredados.
OS DEGREDADOS! Numa breve consulta ao dicionário,aprendemos que degredado é um sujeito que sofreu pena de degredo,ou seja,foi expulso ou excluído do seu país,por decreto governamental em virtude de crimes cometidos. Mas, nada comprova que os degredados que vieram para o Brasil punidos pela Coroa Portuguesa, tivessem sido criaturas perversas ou negativas, sociopatas, incapazes de conviver em sociedade.

Depois da leitura da Carta e dos comentários, pedi aos alunos, que em duplas, escrevessem uma carta relatando o encontro entre os europeus e os nativos pela perspectiva dos povos indígenas.  A seguir, as duplas leram as produções escritas.
Em outra turma, distribuí à classe trechos da carta de Pero Vaz de Caminha e pedi-lhes que identificassem, no documento, as informações mais importantes sobre as intenções dos exploradores. Pedi aos grupos que apresentassem suas conclusões.
Comentei também sobre a literatura que veio depois com o modernista Oswald de Andrade:
A DESCOBERTA (Oswald de Andrade)


Seguimos nosso caminho por este mar de longo

Até a oitava da Páscoa

Topamos aves

E houvemos vista de terra

os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha

Quase haviam medo dela

E não queriam por a mão

E depois a tomaram como espantados

primeiro chá

Depois de dançarem

Diogo Dias

Fez o salto real.
Textos da Carta - intertextualidade com o poema A descoberta:


"E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, (...) E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves (...). Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra!"

"Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados."

"(...) Diogo Dias, (...) Depois de dançarem (...) salto real, (...)"

AS MENINAS DA GARE (Oswald de Andrade)



Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis

Com cabelos mui pretos pelas espáduas

E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas

Que de nós as muito bem olharmos

Não tínhamos nenhuma vergonha.


Texto da Carta - intertextualidade com o poema As meninasd a gare:

"Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam."


      ERRO DE PORTUGUÊS (Oswald de Andrade)


Quando o português chegou

Debaixo duma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio teria despido

O português.
Textos da Carta - intertextualidade com o poema Erro de português:
"À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. (...) "
"(...) aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha(...)"
"(...) tinha ido o degredado com um homem que, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças."
"(...) não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela."

 Leia:  Obra completa da Carta de Caminha

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dom Casmurro : Olhos de Ressaca

Hoje preparei esta aula para motivar os alunos da 2ª série do ensino médio a lerem a obra Dom Casmurro de Machado de Assis. Gostei muito da série que a globo apresentou: "Capitu" e por isso, decidi apresentar o mesmo capítulo em vídeo para que possam visualizar a cena. Depois de lermos o capítulo, assistiremos ao vídeo, conversarei com eles sobre suas impressões e em seguida aplicarei uma atividade em grupo. Após debaterem a melhor resposta, apresentarão à sala no final da aula.
                                              
                                                  Olhos de Ressaca

 

Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. Caso houve, porém, no qual não sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. É o que contarei no outro Capítulo. Neste direi somente que, passados alguns dias do ajuste com o agregado, fui ver a minha amiga; eram dez horas da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha.
--Está na sala penteando o cabelo, disse-me; vá devagarzinho para lhe pregar um susto.
Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da parede, entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos, toda ela voou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:
--Há alguma cousa?
--Não há nada, respondi; vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. Como passou a noite?
--Eu bem. José Dias ainda não falou?
--Parece que não.
-- Mas então quando fala?
--Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto; não vai logo de pancada, falará assim por alto e por longe, um toque. Depois, entrará em matéria. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita...
-- Que tem, tem, interrompeu Capitu. E se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser padre, mas poderá alcançar?... Ele é atendido; se, porém... É um inferno isto! Você teime com ele, Bentinho.
--Teimo- hoje mesmo ele há de falar.
--Você jura?
--Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitou, mas então com as mãos, e disse-lhe,--para dizer alguma cousa,--que era capaz de os pentear, se quisesse.
--Você?
--Eu mesmo.
--Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.
--Se embaraçar, você desembaraça depois.
--Vamos ver.

Atividades:
1- Ao apresentar o perfil de Capitu, Machado de Assis revela traços da psicologia feminina: a arte de dissimular e a capacidade que tem a mulher para sair-se bem de situações embaraçosas, como, aliás, se pode ver em outras obras machadianas. É certo afirmar que Capitu tinha tendências a mentira? Justifique.

2- A mentira está muito presente em todo o livro. A verdadeira questão não seria: como a mentira é fundamental para a manutenção das relações sociais, das relações humanas?

3- Depois da sedução como pecado original tem-se o despertar do amor. A sedução de Capitu aparece causando intensa emoção a Bentinho. Você acha que Bentinho realmente não terá um futuro brilhante por não conseguir segurar suas emoções? Justifique.

4- Aqui o autor torna explicita a beleza de Capitu e o encanto de Bentinho - que assume o papel de narrador da trama, desde moleque pela moça. Você concorda com Bentinho quanto a beleza da moça ou há outros motivos para mostrá-la assim? Justifique.

5- A imagem poética central do texto em questão recorre a elemento da natureza para caracterizar o olhar da protagonista da narrativa. O que o autor sugere com estas metáforas?



Fonte: ( Dom Casmurro, Machado de Assis, cap. 32 )

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Vestido de Laura, por Cecília Meireles


O vestido de Laura

é de três babados,

todos bordados.


O primeiro, todinho,todinho

de flores

de muitas cores.



No segundo, apenas

borboletas voando,

num fino bando.



O terceiro, estrelas,

estrelas de renda

- talvez de lenda...


O vestido de Laura

vamos ver agora,

sem mai demora!



Que estrelas passam,

borboletas, flores

perdem suas cores.


Se não formos depressa,

acabou-se o vestido

todo bordado e florido!
 Este poema foi o primeiro que me encantou no mundo da poesia. Acho que isto se deve à fascinação que sempre tive desde de menina por vestidos amplos, rodados e finos. Além disso, minha avó paterna, se chamava Laurinda e talvez essa emoção seja também por este fato. Ela era uma avó muito dedicada às netas e os seus presentes eram sempre vestidinhos rodados. Mas quando o levo para sala de aula, vejo o mesmo encantamento nos olhinhos dos alunos. Quando iniciamos a análise a fascinação aumenta, porque Cecília realmente emociona a cada estrofe. Após a leitura estrutural, chegam a uma análise mais profunda que revela o tema: "as fases da vida", sendo um dos temas preferidos da autora: A transitoriedade do tempo. Os três babados seriam: a primeira, segunda e terceira idade, bem como, no sentido figurado, mostra a passagem por cada uma dessas fases e, finaliza demonstrando que a vida passa rápido.
Um trabalho com ilustração dessa poesia dará sempre um belíssimo resultado e muita alegria com a garotada.

Esta imagem foi produzida com colagem de papel pintado, aquarela e canetinha nanquim.
Imagem da Motoca. net