terça-feira, 23 de setembro de 2008

Os Maias, de Eça de Queiroz


Obra prima do realismo na literatura portuguesa e síntese do talento inovador de Eça de Queiroz, “Os Maias” é o retrato de uma sociedade em busca de sua afirmação. Nesta saga de uma família rica de Lisboa do século XIX, seus personagens vivem as aspirações, os conflitos e as paixões que refletem as forças transformadoras da sociedade em Portugal e no mundo, nessa época. A ironia, o sentimentalismo e a crítica mordaz são algumas das características que os estudiosos identificam como componentes fundamentais da grandiosidade literária de Eça de Queiroz. Grandiosidade que se completa na criação de seus personagens e na construção novelística, e que o aproximam de grandes autores, como Zola e Balzac, na descrição comovente e dramática da vida e da sociedade de seu tempo.
Enredo:
Pedro da Maia casa-se contra a vontade do pai com Maria Monforte, mulher muito bela, a deusa loira, olhos azuis , encarnação de mármore, rompendo as relações familiares. Essa personagem fraca, produto da educação tradicional portuguesa apresenta melancolia nervosa depois da morte da mãe e pode ser considerada o modelo do herói romântico. Todavia, o maior erro de Pedro é o de levar, para dentro da própria casa, o príncipe napolitano, ferido por ele numa caçada. Convalescendo em contato com Maria Monforte e tornando-se íntimo da família, nasce entre eles paixão arrasadora. A desmedida começa a intensificar-se ao nível do trágico, no momento em que Pedro, deseperançado, vai ao Ramalhete, levando o filho bebê, informar ao pai do ocorrido e suicida-se covardemente, porque Monforte abandona-o para lançar-se à vida com um aventureiro. Maria Monforte abandona o lar, o marido, o filho. Dessa maneira, a ocorrência que provoca a confusão de identidade torna-se possível: o incesto é a conseqüência deste ato de Maria Monforte. O adultério põe em xeque a identidade da família, pois, além de fugir do marido e abandonar o filho, ela trai a filha, enganado-a e não lhe revelando a sua verdadeira identidade. Maria Monforte é rejeitada por Afonso da Maia por não ter ascendência nobre, não ter título e ser filha de traficante de escravos. Ela irá defender-se ou vingar-se dessa rejeição. Abandonando o marido, provoca-lhe o suicídio e a ruína da família Maia. Dá primazia ao amor, recusa a riqueza e a nobreza de Pedro, chega ao extremo de viver em estado deplorável e penurioso, mas em tempo algum dirige-se aos Maias para pedir ajuda ou proteção. Afonso exerce o papel de pai do neto Carlos, com participação muito mais ativa. Cuida da educação com presteza na tentativa de reparar o dano anterior. Afonso não usa da franqueza para com o neto e conta falsa história sobre os pais do mesmo. Acredita-se que a maior desmedida de Afonso é a de dar por vencida a busca à neta, quando Alencar descobre que a filha da Monforte está morta e não atenta para o fato de que Maria pudesse ter tido outra filha, além de Maria Eduarda. A procura persistente de Afonso pela neta não teve bons resultados, decorrente do mal entendido motivado pelas informações dadas por Alencar a Vilaça de que a neta de Afonso havia morrido. Afonso concorre para a confusão de identidade dos netos ao desistir de encontrar Maria Monforte e Maria Eduarda. Ele opta por deixar no plano do ignorado a desconhecida condição da mãe e da filha, edificando história na enganosa conjectura de que ambas estão mortas e que não é necessário comentar mais o assunto. Mas, o velho Afonso morre tragicamente, na mais completa solidão interior quando descobre a tragédia. Desencantado, desiludido, desiste e a desistência realiza-se na morte. A morte de Afonso é a consumição de Carlos. Maria Eduarda, depois de muita privação e miséria, passa a viver com um brasileiro rico, Castro Gomes, tendo um forte sentido de autoridade moral e honra, pois não hesita em penhorar jóias e não aceitar o dinheiro que Castro Gomes lhe manda do Brasil, a partir do momento em que se envolve com Carlos da Maia. Maria Eduarda não conta a Carlos que Castro Gomes não é seu marido, nem pai de Rosa e que apenas é sustentada por ele. Quando descobre que ela é sua irmã, acaba cometendo o incesto voluntário e provocando a morte do avô. Mesmo conhecendo a circunstância da relação, Carlos não tem resolução e firmeza o suficiente para revelar tudo à Maria e romper a ligação incestuosa. Um embaraço, bem como uma atração lasciva o envolve. No entanto, a atração converte- se, logo depois, em repugnância pela mulher que sabe do seu sangue. A intensidade da queda de Carlos é acentuada porque, não obstante a educação inglesa recebida, que tem como objetivo desenvolver a aplicação correta da razão para julgar ou raciocinar em cada caso, o controle de si próprio, assim como a autocrítica, ele torna-se vítima do destino e do amor Apesar da instrução exemplar que Afonso oferece a Carlos, as falhas e os enganos cometidos por ele são excessivos. Carlos falha na profissão e nos projetos sociais, quando se deixa levar pela falta de ânimo. Falha, igualmente, no amor, inicialmente pela volubilidade amorosa, depois porque só separa-se de Maria quando em relação a ela sente um “indizível horror dum nojo físico”. No penúltimo capítulo, a fatalidade paira sobre a felicidade de Maria Eduarda. Ega vai à Rua de São Francisco facultar a revelação da terrível verdade. Ele diz que ela é uma parenta muito chegada de Carlos e entrega-lhe todos os papéis que pertenceram à mãe, Maria Monforte, inclusive a declaração de maternidade e paternidade. Ela lê e compreende a realidade atroz. Na partida para Paris, na estação de Santa Apolônia, a imagem negra e lúgubre de Maria Eduarda que “vinha toda envolta numa grande peliça escura" estabelece oposição com o brilho intenso e suntuosidade da primeira aparição: “com passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro e um aroma no ar”
A Rede Globo produziu a minisérie em 2001, escrita por Maria Adelaide Amaral e João Emanuel Carneiro, unindo tramas e elementos de outro romance de Eça, A Relíquia, e dirigida por Luiz Fernando Carvalho, elenco: Ana Paula Arosio , Fabio Assunção, Walmor Chagas, Leonardo Vieira, Simone Spoladore, Eva Wilma, Selton Mello.
Aqui, neste endereço, uma série de vídeos da minisérie da Globo.

Os Maias, capítulo I

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
QUEIRÓS, Eça de. Obra Completa. Organização geral, introdução, fixação dos textos

Um comentário:

Pedro Henrique disse...

Os Maias, de Eça, eu adoro. Mas não consigo gostar da minisérie global.

Abraço!