terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A Caolha, de Júlia Lopes de Almeida

Da obra de Júlia Lopes de Almeida o que eu mais gosto é este conto. A temática da gratidão filial e da maternidade seria o centro da narrativa. Ao apresentar a personagem, no início do conto, descrevendo-a como um ser feio e repulsivo – a exemplo do Quasímodo, personagem de O Corcundade Notre Dame, de Victor Hugo, que também apresenta o “Grotesco e o Sublime”, tendo por base um personagem representativo do hibridismo: a besta de alma humana –, Júlia Lopes de Almeida vai desconstruindo a monstruosidade física da personagem pela sua alma pura, honesta, submissa e dedicada. Até aqui, uma narrativa tipicamente romântica, nos moldes de Victor Hugo. Mas a narrativa não termina aí. A sublimidade da mãe imperfeita não se perde em aceitar a ingratidão do filho. É a sua ação final que explica a importância descritiva e inicial: suas mãos magras e ossudas, do começo do conto, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho, são capazes, no final, de erguerem-se altivas, apontando ao filho, com energia, a porta da rua; a resignação de quem nada fala, no início do conto, ao final, revela-se contrariamente, pois a caolha toma fôlego para as verdadeiras e amargas palavras. A atitude da mãe, então, se faz jus a uma missão de educadora, revela, também, a proposta de Júlia Lopes de Almeida, advogando à mulher um papel mais eficiente e participativo na educação dos filhos. Aquela mulher disforme, do início do conto, revela-se como aquela que, realmente, consegue “ver”. Físico e psíquico; exterior e interior; aparência e essência compõem as oposições semânticas que vão sendo construídas e entrelaçadas ao longo da narrativa. Concomitantemente, o retrato da mãe é composto fisicamente, o retrato do filho é desvelado ao leitor, através de suas ações.
No conto, é através do olhar que as personagens verdadeiramente “falam”: o olhar social aproxima e afasta, integra e desintegra, aceita e rejeita. Na verdade, através da descrição inicial da caolha , Júlia Lopes de Almeida forjou um álibi para desvendar outros assuntos que, contextualmente, foram tocados, mesmo que de maneira branda e exemplar, não fez o papel de trombeta revolucionária do feminismo, mas pela via da linguagem, inovou em relação à forma como a mulher poderia “agir” escrevendo.
Sagazmente, através de temas tidos de domínio feminino, introduziu uma nota de discordância e questionamento, permitindo assim, a mulher brasileira da época, “olhar-se” como sujeito cultural e social.
REFERÊNCIA
MORICONI, Itálo.Cem Melhores Contos Brasileiros do Século.
O conto interpretado pela divina Marília Pera - TV Cultura:

2 comentários:

Miguel Andrade disse...

Amei!

Márcia disse...

Miriam este conto é de arrepiar , sinistro mesmo que qualidade de descriçaõ da autora e que interessante paralelo vc fez com Corcunda de Notre Dame são muito parecidos!
parabéns!