domingo, 14 de setembro de 2008

SAGARANA, de Guimarães Rosa

O livro principia por uma epígrafe, como em todos contos, uma espécie de resumo do conto, extraída de uma quadra de desafio, que sintetiza os elementos centrais da obra : Minas Gerais, sertão , bois vaqueiros e jagunços , o bem e o mal:
"Lá em cima daquela serra,
passa boi , passa boiada,
passa gente ruim e boa
passa a minha namorada".
Sagarana , compõe-se de nove contos, com os seguintes títulos:
"O BURRINHO PEDRÊS"
" A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO"
"SARAPALHA"
"DUELO"
"MINHA GENTE"
"SÃO MARCOS"
"CORPO FECHADO
"CONVERSA DE BOIS"
"A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA"
Este foi um dos únicos livros que não consegui ler com os olhos, teve que ser em voz alta. Só assim para se perceber o jeito mineiro de falar. É certo que há muitas metáforas que também tornam a leitura difícil. A obra que acabei de ler encontra-se na biblioteca do professor dos colégios do Estado do Paraná. Recentemente, foi feita uma edição comemorativa dos 70 anos, muito bonita por sinal. O livro apresenta narrativas alegóricas com sentido moral. Às vezes certos contos, apresentam outras historinhas dentro do conto, tornando a leitura muito interessante. Não é uma leitura que flui, tem-se que ler e parar para pensar nas questões filosóficas que Guimarães o tempo todo nos mostra. Sagarana promove uma total renovação do regionalismo brasileiro como no uso de arcaísmos, neologismos, como em:refrio, retrovão, levantante, e desfalar. Há utilização de frases brilhantes como:"os passarinhos que bem-me-viam", "e aí se deu o que se deu – o isto é". Não são esquecidos os valores espirituais do matuto mineiro, que se igualam e traduzem os valores comuns aos homens de qualquer espaço ou tempo, consagrando a travessia humana pelo viver. Interessante notar os ditados populares: "Sapo não pula por buniteza, mais por percisão". Achei interessante também as palavras arcaicas, como:riba (por riba do monte), banda (em lugar de lado), vigiar (em vez de olhar), quentar (em vez de esquentar) e uma enfiada de verbos com prótese de um a, outrora bastante em voga em nossa língua e que ainda existe na fala do nosso homem do interior: agarantir, alembrar, alumiar, amostrar, arreconhecer, arrenegar, arresolver, arresponder, arresistir, aclivertir, etc. Além das onomatopéia: Entre outros, cito: “A boiada entra no beco - Tchou! Tchou! Tchou!... para tanger o gado; “lho... lho... lho... - vão, devagar, as braçadas de Sete-de-Ouros” , para o burrinho atravessando o rio; “-Prrr-tic-tic-tic!” para chamar galinha; “i-tchungs”-tchungou uma piabinha” , para o movimento da piaba, etc.
Qual o conto que eu mais gostei?
O burrinho pedrês. Leia e vai saber o porquê.

2 comentários:

Cecilia Barroso disse...

Eu nunca consegui ler Sagarana inteiro. Sempre paro em São Marcos e não sei o porquê.
Mas terminá-lo é uma de minhas metas...
Vou adotar a técnica de ler em voz alta da próxima vez. De repente isso vai fazer toda diferença.

Beijocas

mario francisco disse...

Cecília, isso de "empacar" na leitura do Rosa me aconteceu com Grande sertão: veredas - eu estopava sempre por volta da página 30. Só na 4a. tentativa - foram uns oito anos desde a primeira, dos 18 aos 26! - é que, ufa!, ultrapassei aquela fronteira, aquela pedreira, sem nunca descobrir o que é que ali havia, como muralha fantasmal... Quanto a você, a barreira acontece em algum ponto repetido? Tenho MUITA familiaridade com "São Marcos" - quem sabe, juntos, a gente chegue a uma saída...