
Quando tudo isto ocorreu e fiquei sabendo da influência deste livro na decisão do assassino, quis lê-lo. Não foi fácil consegui-lo porque aqui no Brasil ele não era tão conhecido. Li-o rapidamente procurando fazer uma análise das causas desta influência. A conclusão que cheguei é que o autor somente fala da rebeldia do protagonista, mas em nenhum momento se refere a assassinatos de pessoas famosas ou não. Embora seja um hino da revolta juvenil, O apanhador no campo de centeio também é lido por marmanjos. Não é preciso ser jovem para identificar-se com o anti-herói, rebelado contra a sociedade. Em nenhum momento, contudo, o livro de Salinger faz apologia à violência ou ao ódio. O tema da rebeldia não justifica qualquer crime, ao contrário do que entendeu o assassino de Lennon. Ele levou ao pé da letra as revoltas passageiras do personagem, das quais o próprio se arrependeria. Ao contrário do criminoso, Caulfield não sofria de esquizofrenia e qualquer doença mental. Apesar de Chapman ter culpado parte do romance pelo sangue derramado, a rebeldia inaugurada na narrativa de Salinger está longe de estimular a barbárie. Logo após a morte de Lennon, as vendas do clássico dispararam, até firmar-se como best-seller e leitura obrigatória. Todo mundo queria saber quem era Holden Caulfield. O que tinha de tão curioso a ponto de inspirar um assassino?
Outro uso misterioso da obra foi no filme Teoria da Conspiração, em uma referência a Chapman traz Mel Gibson no papel de um lunático que compra todas as cópias de O Apanhador... que consegue encontrar, sem nunca ter lido o livro.
Salinger, ao escrever, não imaginava o estrondoso sucesso que viria. Se soubesse, talvez não tivesse sido capaz de criar um romance tão despretencioso e modestamente banal. Até porque levou uma vida semelhante a de seu personagem, anti-social. A narração em primeira pessoa é repleta de gírias e expressões jovens. É assim que o personagem vomita sua inocência. Embora transcorrido nos anos 50, o romance parece não ter época. Poderia ser adaptado para qualquer década posterior. A ausência de sinais do passado, exceto por uma máquina de escrever, evidencia que o romance não envelheceu como ocorre com os clássicos estabelecidos.




