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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dom Casmurro : Olhos de Ressaca

Hoje preparei esta aula para motivar os alunos da 2ª série do ensino médio a lerem a obra Dom Casmurro de Machado de Assis. Gostei muito da série que a globo apresentou: "Capitu" e por isso, decidi apresentar o mesmo capítulo em vídeo para que possam visualizar a cena. Depois de lermos o capítulo, assistiremos ao vídeo, conversarei com eles sobre suas impressões e em seguida aplicarei uma atividade em grupo. Após debaterem a melhor resposta, apresentarão à sala no final da aula.
                                              
                                                  Olhos de Ressaca

 

Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. Caso houve, porém, no qual não sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. É o que contarei no outro Capítulo. Neste direi somente que, passados alguns dias do ajuste com o agregado, fui ver a minha amiga; eram dez horas da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha.
--Está na sala penteando o cabelo, disse-me; vá devagarzinho para lhe pregar um susto.
Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da parede, entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos, toda ela voou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:
--Há alguma cousa?
--Não há nada, respondi; vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. Como passou a noite?
--Eu bem. José Dias ainda não falou?
--Parece que não.
-- Mas então quando fala?
--Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto; não vai logo de pancada, falará assim por alto e por longe, um toque. Depois, entrará em matéria. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita...
-- Que tem, tem, interrompeu Capitu. E se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser padre, mas poderá alcançar?... Ele é atendido; se, porém... É um inferno isto! Você teime com ele, Bentinho.
--Teimo- hoje mesmo ele há de falar.
--Você jura?
--Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitou, mas então com as mãos, e disse-lhe,--para dizer alguma cousa,--que era capaz de os pentear, se quisesse.
--Você?
--Eu mesmo.
--Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.
--Se embaraçar, você desembaraça depois.
--Vamos ver.

Atividades:
1- Ao apresentar o perfil de Capitu, Machado de Assis revela traços da psicologia feminina: a arte de dissimular e a capacidade que tem a mulher para sair-se bem de situações embaraçosas, como, aliás, se pode ver em outras obras machadianas. É certo afirmar que Capitu tinha tendências a mentira? Justifique.

2- A mentira está muito presente em todo o livro. A verdadeira questão não seria: como a mentira é fundamental para a manutenção das relações sociais, das relações humanas?

3- Depois da sedução como pecado original tem-se o despertar do amor. A sedução de Capitu aparece causando intensa emoção a Bentinho. Você acha que Bentinho realmente não terá um futuro brilhante por não conseguir segurar suas emoções? Justifique.

4- Aqui o autor torna explicita a beleza de Capitu e o encanto de Bentinho - que assume o papel de narrador da trama, desde moleque pela moça. Você concorda com Bentinho quanto a beleza da moça ou há outros motivos para mostrá-la assim? Justifique.

5- A imagem poética central do texto em questão recorre a elemento da natureza para caracterizar o olhar da protagonista da narrativa. O que o autor sugere com estas metáforas?



Fonte: ( Dom Casmurro, Machado de Assis, cap. 32 )

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Teoria do Medalhão


Li o conto “Teoria do Medalhão”, de Machado de Assis para os meus alunos da 2ª série do ensino médio, ansiosa pela recepção que teriam. À medida que fui lendo o conto, fui anotando os conselhos do mestre, sem dizer que tudo se passava de ironia. Levaram muito a sério os conselhos, alguns duvidavam da eficácia, mas mesmo assim anotavam. Depois que resenharem dando suas opiniões, revelarei a verdadeira intenção do autor.
No conto de Machado há uma conversa de um pai com o filho, no dia da maioridade deste último, onde propõe ao filho ser um Medalhão. Este é o pretexto de que o escritor se serve para criticar a condição humana e social para, como sempre, nos revelar suas astúcias e a atualidade de seu discurso. Revela um mundo feito de aparências, o qual adquire um status de realidade – é o tema da Teoria do medalhão, onde a identidade do indivíduo é determinada por imagens criadas externamente.

No início já se percebe o autoritarismo paterno, a hipocrisia da vida baseada em aparências, esse contraste é evidente nos longos parágrafos que seu discurso ocupa no texto – trinta e duas linhas no parágrafo e a fala monossilábica do filho que ocupa, quando muito, duas linhas. O que, porém, vem a seguir, travestido de conselhos, nada mais é do que a manifestação dos desejos do pai, que nutrira ele mesmo, em sua mocidade, o sonho, frustrado, de ser medalhão. Depois a escolha do nome: Janjão. Nota-se aí uma ironia nada velada. Quem daria este nome ao filho?

Como fazer para tornar-se um verdadeiro medalhão:

1) Ser sério;

2) O uso de termos como “metafísica” ou “filosofia da História” traz para quem os emprega uma aura de respeitabilidade à qual se agrega a admiração;

3) Não ter ideias próprias ou originais;

4) Nenhuma (imaginação), antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo;

5) No papel e na língua nenhuma filosofia;

6) Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc;

7) A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição.

8) Não andar sozinho;

9) Decorar toda terminologia científica e utilizá-la no momento certo para impressionar;

10) Farejar festas, reuniões políticas;

11) Fazer publicidade de si. (Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos de mundo).


O que mais me impressiona neste conto é a sua contemporaneidade, pois mesmo o escritor tendo se baseado na fórmula dos diálogos de Sócrates e Platão e em algumas teorias maquiavélicas, que são obras antigas com ideias também antigas, tornando-o ainda mais admirável, pois não o são. O individualismo, o pragmatismo e a hipocrisia, elementos de dissimulação da realidade e de construção de um indivíduo pronto para enganar a sociedade com padrões de comportamento calcados nas aparências. E infelizmente, ao mesmo tempo ser admirado: – o medalhão – presentes no conto de Machado de Assis.

Você conhece algum por aí?

Referência bibliográfica

ASSIS, Machado. Teoria do medalhão. In:__. Papéis Avulsos. Livraria Garnier, 2000.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Mil Casmurros


Foi criado um dos projetos mais interessantes da internet publicitária brasileira recente, o “Mil Casmurros”, no ar desde dia 20 de novembro.
Trata-se de uma leitura coletiva e colaborativa de Machado de Assis, em que o livro “Dom Casmurro” foi dividido em 1000 pequenas partes e as pessoas são convidadas a gravar trechos da história. A mecânica é bem simples: basta escolher um dos trechos disponíveis, ligar a webcam e gravar. Quem preferir, também pode fazer upload de um arquivo. Além disso, os vídeos podem ser compartilhados, com permalink e código para embed em blogs e redes sociais.No momento, 27% da leitura foi completada, incluindo a participação de diversas celebridades globais e rostos conhecidos da web, cada um interpretando a história a sua maneira. A intenção do projeto Mil Casmurros é gerar interesse pela obra de Machado de Assis . Outra forma de divulgação foi uma ação chamada “Passe Adiante Capitu”, onde foi “perdido” cerca de dois mil DVDs com imagens inéditas da série "Capitu" nas capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Brasília. Além de conferir o conteúdo exclusivo, quem encontra um dos DVDs é convidado a “perde-lo” novamente, para que outra pessoa possa achar e registrar sua opinião no site da série.
A criação é da agência LiveAD, com design do estúdio Santa e desenvolvimento da Simple Brasil. Assista abaixo o teaser de “Capitu”:

Capitu teaser na íntegra high quality

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Uns Braços, de Machado de Assis


Hoje faço questão de postar um trabalho que realizei na sala de aula do segundo ano “B”, do Colégio Estadual Unidade Polo, onde eu trabalho com Língua Portuguesa. Trabalhei o conto “Uns Braços”, de Machado de Assis. Depois do conto lido, analisado e debatido algumas especificidades da obra com a turma, pedi-lhes como atividade, uma resenha. E aqui está a resenha do aluno Geovani Scoassabi. Ao ler fiquei admirada com a visão crítica que ele demonstrou. Leiam e comprovem:

Um dos contos mais originais e incompletos do Realismo de Machado de Assis:”Uns Braços”. Nele Ignácio, um jovem de 15 anos, do interior que tinha ido morar na capital para estudar, apaixona-se sorrateiramente por D. Severina, uma senhora com o dobro de sua idade, casada com o solicitador Borges. A viagem pelo tempo dos acontecimentos que o autor apresenta em seus contos, facilita a leitura e a compreensão da história. O menino que de menino não tem nada, apaixona-se lúdica e eroticamente por uma imagem de sua anfitriã, através da visão dos braços nus de D.Severina. Quando menos se espera em um sonho, pensando em sua amada idealizada, Ignácio recebe um beijo de D. Severina, premeditado e recriminado por ela, que logo após o incidente proposital, despacha o rapaz de volta a sua origem, provavelmente com um sentimento de culpa e remorso. Hoje, acredito que o autor teria descrito com mais erotismo, mas o manteria incompleto como é a característica do autor. O caso de um jovem apaixonar-se por uma mulher mais velha é comum, influenciado por vários motivos, quer sejam eles: dinheiro ou popularidade. E acredito que em poucos casos, por amor.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O CIÚMES NA LITERATURA

A intensidade dramática do ciúme faz dele um tema atraente para escritores. Alguns souberam tratá-lo com maestria e produziram obras primas. Citamos o exemplo clássico de Otelo, de William Shakespeare (1603) e de três romances da língua portuguesa:Dom Casmurro, de Machado de Assis (1899), Alves & Cia., de Eça de Queiroz (1925) e São Bernardo, deGraciliano Ramos (1934).
Otelo
Como em todas as tragédias, desde sua origem na Grécia antiga, o destino trágico dos personagens centrais está traçado desde o início. Prisioneiros de suas próprias limitações pessoais e sociais são arrastados para ele e não podem mudá-lo. Otelo, o general mouro de Veneza, é prisioneiro da cor de sua pele. Por seus dotes militares, é tolerado, mas não aceito pelos venezianos, que nutrem com relação a ele sentimentos racistas. Otelo está ciente desse preconceito e se sente inseguro. Para dissimular sua insegurança, comporta-se de modo grosseiro e impulsivo, a ponto de intimidar sua própria mulher, Desdêmona. A insegurança de Otelo faz com que seja receptivo às intrigas de Iago, que desperta seus ciúmes, insinuando um romance entre Desdêmona e Cássio. O ciúme se intensifica ao longo da peça e culmina com o assassinato de Desdêmona pelo marido. Uma acuada Desdêmona não pode também fugir a seu destino, como Otelo não pode fugir do crime e de sua autodestruição. O ciúme é um tema fundamental na tragédia, pois além do ciúme de Otelo por Desdêmona, temos o de Iago por Cássio, porque este tem um posto militar superior ao seu, e o de Rodrigo, cúmplice de Iago, por Otelo, porque está apaixonado por Desdêmona. É em Otelo que se encontra a mais genial - e certamente a mais popular - definição de ciúme: ciúme é um monstro de olhos verdes (a green-eyed monster).
Dom Casmurro
Se Otelo é o clássico mundial de obras literárias sobre o ciúme, no Brasil esta honra cabe a Dom Casmurro, de Machado de Assis. Até hoje é motivo de aceso debate se Capitu traiu ou não o marido com seu melhor amigo, Escobar. A questão, no fundo, é irrelevante, pois para entendermos o perfil psicológico de Bentinho, basta sabermos que ele acredita ter havido adultério. Também é irrelevante se o fato que desencadeou o ciúme - a forma intensa com que Capitu fitava Escobar no velório deste, perturbando Bentinho a ponto de impedi-lo de pronunciar o discurso fúnebre – ocorreu na realidade ou apenas existiu na imaginação do personagem.No despertar do ciúme, teve papel certamente preponderante o sentimento de culpa que carregava Bentinho por não cumprir a promessa de sua mãe, de tornar-se padre e daí o ressentimento inconsciente contra Escobar, que o ajudara a dissuadir a mãe de seu intento, permitindo seu casamento com Capitu. A culpa e o ressentimento eram tão fortes que Bentinho esteve a ponto de suicidar-se. Não o fez e depois de ter perdido a mulher e humilhado a ela e ao filho, se tornou o Dom Casmurro do título.
Alves & Cia.
Pode-se dizer que o romance de Eça é sobre o anticiúme. Godofredo Alves, voltando mais cedo que o costume para casa, flagra a mulher Ludovina, abandonada, sobre o ombro de um homem, que lhe passava o braço pela cintura, e constata petrificado, que se trata de seu sócio, Machado. Após ofender e expulsar de casa a mulher, começa a sofrer as dores do ciúme, mas, já nas primeiras páginas Eça deixa claro que o desejo de sofrer de Alves não vai longe: Então imediatamente resolveu resistir àquele estado de perturbação e inquietação. Quis que no seu espírito reinasse a ordem; que tudo na casa retomasse o seu ar regular e calmo. Naquele momento, ainda não manifestava Alves a intenção de reconciliar-se com Ludovina, mas aos poucos esta intenção vai se formando no seu espírito e, ao final, do romance já está os três juntos, o casal e o amigo Machado, brindando seu sucesso na vida e nos negócios.
Há no romance de Eça uma crítica sutil ao capitalismo e o apego da burguesia a coisas materiais. A separação de Alves era ruim para os negócios da firma: seria mal visto na praça e perderia a colaboração de um sócio eficiente. À violência do ciúme segue-se a frieza do cálculo financeiro, a ponto de Alves duvidar até mesmo que tenha visto Ludovina em atitude comprometedora.
São Bernardo
Em São Bernardo, o tema do ciúme vem mesclado com uma crítica ao coronelismo dominante noNordeste. O Coronel Paulo Honório considera as mulheres bichos difíceis de governar, mas quer casar para ter um herdeiro. Decide que a mulher ideal seria a filha do juiz, mas indo a casa dela para pedir sua mão ao pai, encontra uma outra moça, Madalena, que lhe parece mais interessante e acaba por casar-se com ela. Professora culta e politizada, Madalena desperta desconfianças do marido, por suas opiniões e por sua atitude generosa para com os explorados empregados de suas terras. Acha que ela é comunista e comunista, sem religião, é capaz de tudo. Passa a duvidar da honestidade da mulher. Atormenta-a de tal maneira, que Madalena comete suicídio. A vida de Paulo Honorato se transforma num imenso vazio. Chega à velhice solitária, perseguida pela imagem de Madalena. Paulo Honorato era dono de terras, de gado e da vontade dos homens. Casou com Madalena, não para ter uma companheira pela vida, mas com a atitude calculada de quem está acrescentando mais um item a seu patrimônio. Este novo item tinha um único propósito: dar-lhe um filho. Mas Madalena tinha idéias e vontades próprias, não lhe pertencia porque não se submetia. Madalena era o outro que nunca teve que enfrentar e o atemorizava. Precisava então destruí-la, pois estava em descompasso com o mundo que conhecia até então. Mas só poderia destruí-la se elaborasse em sua mente que Madalena não prestava daí a pecha de comunista, mais uma crítica de Graciliano aos preconceitos da época, e de adúltera. Quando Madalena se suicida, um gesto autônomo de vontade que não esperava, dá-se conta do que havia feito e, no fim do romance, solitário, conclui: Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O feminino em Machado de Assis

Pretenderia Machado de Assis o matriarcado? Assim, dizem muitos dos estudiosos de sua obra, para os quais ele era mesmo feminista. Sobretudo por seu explícito, e corajoso, reconhecimento das necessidades emocionais, econômicas e sexuais da mulher — exposto em romances e contos. A obra de Machado de Assis, assim como Flaubert, Balzac e Eça de Queirós, destaca a questão da sexualidade feminina. Em seus romances podemos notar uma mulher que quer poder escolher a forma de sentir e amar, embora a maioria só tentasse em pensamento, pois viviam muito isoladas em suas casas, tinham pouco estudo, e sua principal meta era um casamento. Se houvesse amor, melhor, mas não era o principal,pois a questão do amor era secundária, era um luxo que muitas mulheres não tinham : Machado,fiel à ideologia das décadas de 1850-60, assim o trata em Ressureição, em A mão e luva, mas redime o amor em Memorial de Aires, numa “recomposição com a vida”, fazer convergir para o corpo o protesto da sua sexualidade insatisfeita.
Escrevia sobre mulheres e para mulheres: parece mesmo que tinha certa predileção em escrever para este público. Sua obra, de modo geral, encena vários tipos femininos, com histórias povoadas de muitas personagens e situações que mostram as alternativas com que as mulheres se defrontam na vida: assim é com Lívia de Ressurreição, Guiomar de A mão e a luva, Helena, Iaiá Garcia, Virgília e Marcela de Brás Cubas, Sofia de Quincas Borba, Capitu de Dom Casmurro, Flora de Esaú e Jacó, Fidelia e Carmo de Memorial de Aires, além da profusão das protagonistas de inúmeros contos — como “Missa do galo”, “Capítulo dos chapéus”, “Singular ocorrência”, “Uma senhora”, “Trina e una”, “Primas de Sapucaia!”, “Noite de almirante”, “A senhora do Galvão”, “Uns braços”, “D. Paula”, Rita, em “A Cartomante”, que encenam vários tipos femininos e situações com as quais as mulheres se defrontam na vida comum, podendo mesmo ser classificados como Estudo sobre o feminino, ao demonstrarem a sensibilidade de Machado no trato de questões que envolvem moral, ética, preconceito social, autoritarismo, amor, ciúme e adultério.
Suas mulheres ficcionais, orgulhosas ou tímidas, calculistas ou levianas, singelas ou complexas. Machado preocupou-se com o psicológico de maneira muito especial, podemos constatar nos climas, ambientes, situações existenciais sutis e delicadas: as mulheres surgem como personagens de grande densidade psicológica, tornando o enredo de suas obras muito denso, de difícil compreensão. Na maioria dos romances, a mulher é o elemento forte, traz o homem dependente de si, ela é o esteio, a base da relação. Há matriarcas que dominam e comandam propriedades e a família, viúvas que não se casam, em que se percebe que a figura masculina é, por vezes, desnecessária.